Campo Grande-MS 27.07.2017

Priscila Dourado

Arquiteta e escritora

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SEX, 13.11.2015

A minha verdade, a sua verdade, a verdade que não é de ninguém

Cada verdade tem sua cor, seus matizes e suas nuances

Priscila Dourado

Para o Portal Top Vitrine

A minha verdade, a sua verdade, a verdade que não é de ninguém.

 

Cada um de nós carrega consigo a sua verdade. E a verdade de um não é necessariamente a verdade do outro, aliás, nunca é.

 

Cada verdade tem sua cor, seus matizes e suas nuances. Não há uma que seja absoluta e verdadeiramente estanque.

 

E são essas nuances e matizes, que são tão pessoais, que causam tanta balbúrdia. E tem mais... A vivência que cada um de nós traz torna as verdades mais ou menos reais.

 

Saber distinguir uma verdade da outra é uma arte, e mais ainda, saber ser verdadeiro, um pesadelo.

 

Pesadelo para quem o é. Pois a verdade dói.

 

E quem quer sentir dor? Quem quer passar por algo que corrói ou algo que nos faz ver o quanto a realidade com suas verdades poderiam ser diferentes.

 

E as verdades de cada um vão se misturando, se conflitando e em alguns raros e preciosos momentos, tornam-se cores únicas.

 

Cores únicas de um único momento que não voltará. Que será apenas o que é: um momento.

 

E as cores mais bonitas, irrecuperáveis e impossíveis de serem copiadas ficarão ali, naquele momento. No breve momento em que as verdades únicas e verdadeiras se fundiram.

 

Mas como seres que se fundem e se rompem, as cada momento teremos novas cores, teremos nossos sonhos.

 

E nossos sonhos são nossas verdades, mas nossas verdades não são nossos sonhos.

 

E então nos resta, apenas, criarmos novas verdades e novos sonhos, e novamente quem sabe com sorte, termos mais um momento de formação de mais uma única cor única.

 

E a vida com suas compensações, nem sempre nos dá o que queremos de fato.

 

Nem sempre nos dá o sonho. E por mais esdrúxulo que pareça, às vezes, corremos tanto atrás de um sonho, que quando o realizamos nos deparamos com a realidade que ele é, mas que não é nosso sonho.

 

Porque o sonho que nós sonhamos, é de acordo com nossa realidade, mas ele sempre e invariavelmente acontece balizado com a realidade dos outros, e aí ele não fica tão lindo assim.

 

Mas ainda nos restam os momentos. Tão pequenos, tão raros, tão sublimes.

 

E estes sim, devem ser nossa realidade, pois assim a vida não fica tão árida.

 

Os momentos e suas realidades, as realidades e seus momentos são nossa vivência, nosso magma.

 

O que nos resta é decidir se seremos vulcões ativos ou adormecidos.

 

Explodimos e expulsamos nosso magma, causando devastação e vida nova ou ficamos apenas criando estâncias termais e correntes de água morna?

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QUI, 05.11.2015

Minhas marcas

Existem as marcas boas e as ruins

Priscila Dourado

Para o Portal Top Vitrine

Estou toda tranquila quando uma amiga me vira e pergunta: Que marca é essa nas suas coxas?

 

Ao que respondo muito contente: Ah, é da bermuda de ciclismo! Estou conseguindo pedalar todos os dias!

 

E ela retruca. Está feio, passe um protetor solar.

 

E aquilo ficou me reverberando por dias.

 

Não que tenha me feito parar, ou mesmo que tenha me feito passar o filtro solar.

 

Foi então que percebi que tinha marcas nos braços também. Mas a felicidade de se fazer algo que se gosta muito é tão grande que nem nos atemos aos detalhes.

 

E comecei a perceber o quanto a vida nos marca. Sejam por sol ou marcas invisíveis ao olho, mas sempre carregamos conosco marcas.

 

Marcas que são só nossas e que nos balizam e que cada uma tem sua própria característica e acaba por nos definir.

 

E assim como as marcas que nos fazemos, podemos assumir que inevitavelmente deixamos marcas nos outros.

 

Quem pode afirmar que ouve uma música e não se lembra de uma pessoa ou de um lugar? Ou que vê um gesto, um comportamento e não se lembra de outra?

 

E existem as marcas boas e as ruins. E se a primeira impressão é a que fica, devemos estar sempre atentos para não deixarmos marcas ruins.

 

E olha quem está falando em atenção? A pessoa mais distraída do mundo.

 

Mas uma coisa é esquecer uma data de pagamento e pagar com juros e outra é esquecer algo que apesar de ser muito bom, o que em alguns casos é melhor esquecer-se, do que sofrer a ausência. Não dá para pagar juros com pessoas.

 

Quando falamos de números, correções monetárias, mora e comparamos com relações humanas, chego à conclusão de que as relações financeiras são de longe mais simples.

 

Suas equações são mais pragmáticas e mesmo quando temos que colocar o tempo, salvo algum erro matemático, dá certo.

 

E quando indexamos o tempo nas relações humanas, o mais curioso é que em alguns casos raríssimos o tempo é um protetor solar que não funciona, pois ele passa, mas as marcas não.

 

Não há pragmatismo nas relações humanas, as variáveis são em números impossíveis de se contar porque muito além do tempo, há o momento.

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DOM, 01.11.2015

O senhor de tudo

As coisas boas da vida nos fazem parar no tempo

Priscila Dourado

Para o Portal Top Vitrine

Quanto mais o tempo passa, mais penso que ele é o grande senhor de tudo, inclusive de si mesmo.

 

Lembro-me quando algo acontecia e eu, no meu inconformismo absoluto, sabia que iria ouvir de minha mãe uma de suas célebres frases de mãe: “Dê tempo ao tempo”.

 

Aquilo soava como punk rock em meus ouvidos e, entenda-se, não gosto nem de heavy metal.

 

Mas sabe o quê? Agora, depois de tantos anos, de tanto vai e vm, de tantos encontros e desencontros, eu percebo que nada mesmo como dar tempo ao tempo.

 

O tempo nos mostra as verdades, nos dá oportunidade de entender os fatos, de conhecer melhor as pessoas.

 

Esse mesmo tempo, que muitas vezes nos parece perdido, é na verdade ganho, mas só percebemos conforme ele passa. O que é no mínimo engraçado.

 

E o tempo passa. Ah... Como ele passa...

 

E não volta. E passa mais rápido se for sem qualidade. Digo isso pois quando estamos em situações difíceis ou desagradáveis temos a impressão que o tempo não passa, mas ele está passando e ficamos tão atolados no sofrimento que não conseguimos perceber as coisas boas que fazem com que ele nos pareça mais lento. E por mais paradoxal possa parecer essa afirmação, ela é na verdade uma antítese.

 

As coisas boas da vida nos fazem parar no tempo, ou termos a impressão que o tempo não está passando, pelo menos naquele momento, até porque temos a tendência saudável de lembrarmos sempre do que nos entorpece.

 

Afinal, quem não se vicia em endorfina e serotonina? Atire-me a primeira pedra, quem nunca se curvou solenemente aos seus prazeres!

 

E as verdades, os fatos e as pessoas que são todos sujeitos do tempo também estão sujeitos ao tempo.

 

E como sempre gosto de fazer, vou parafrasear um músico poeta o qual tenho imensa admiração, até porque como não gostar de alguém que fez tantas músicas “só para você?"

 

Hoje o tempo voa, amor / Escorre pelas mãos / Mesmo sem se sentir / Não há tempo que volte, amor / Vamos viver tudo o que há pra viver / Vamos nos permitir...

 

E assim como sabemos que a grande certeza dessa vida é a morte, sabemos que temos que viver todo o tempo, e se possível, fazendo sempre com que ele se estenda mais e seja mais verdadeiro, porque o resto é o que é: o resto.

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