Campo Grande-MS 28.04.2017

Pedro Mattar

Publicitário e Cronista

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TER, 04.10.2016

Sem medo de ir pro inferno. Sem esperança de ir pro céu

Meu ateísmo foi um momento libertador e gratificante

Pedro Mattar

Para o Portal Top Vitrine

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Passei um pequeno trecho da minha vida querendo ir pro céu. Nesse mesmo período eu tinha um medo cabuloso de ir pro inferno, imaginava a lava quente espirrando em mim e o tridente me cutucando por alguma razão.

 

O purgatório pintava na minha cabeça como uma incômoda sala de espera: todo mundo de cueca, de acordo com o pudor da época, e eu encolhidinho à espera de saber se dali iria pro céu ou inferno.

 

Não sei se por deméritos meus ou por indução da igreja, o fato é que esse meu trecho criança ficou comprometido e não tem como repará-lo. Minha evolução poderia ter sido mais produtiva se não tivessem enchido minha cabeça com as merdas que jogaram lá e com as culpas que me fizeram sentir.

 

Culpas são armas poderosas e inibidoras. Quantas vezes fui dormir com uma culpa enroscada na consciência por ter tido um pensamento sacaninha, coisinha de nada, tabus religiosos que eram potencializados pelos padres e que nos faziam parecer criminosos seriais.

 

Vão pra puta que os pariu todos os que tornaram a minha infância um trem vagaroso, pesado e atrasado. Por causa deles demorei em pegar velocidade. Poderia ter sido uma cara inteligente, talvez um bom escritor, uma cabeça com maior raciocínio e melhor lógica.

 

Agora, passado tanto tempo de mal uso, tenho que me conformar em ser o que sou, esse traste retardado que você lê, ou não. Hoje eu não quero mais ir pro céu, a não ser como caminho pra chegar em Paris. Tirando o fato de achar que fui tungado na infância com essas baboseiras bíblicas, meu ateísmo foi um momento libertador e gratificante. Ele aconteceu como a luz que se acende depois de um longo período de escuridão. Alguém deixou a porta da prisão aberta e sai para descobrir o mundo sem conversa fiada ao sair dali.

 

Nada é mais libertador do que perder o medo de pensar a partir de você mesmo. Porque a gente nasce pensando com a cabeça dos outros, da experiência vivida por outros e não aquela que permite avaliar tudo por si mesmo. Antes de ser ateu - seja lá o que isso signifique - eu era um covarde por me considerar culpado e sem saber do quê. Tinha a sensação que negar deus era o caminho mais curto para o inferno. Réu sumário. Eu, hein? Na verdade acatava a culpa por medo de confrontá-la.

 

O ateísmo é um ato de coragem, descobri examinando meus achados de lucidez. Porque enquanto a maioria de vocês aceita a existência de deus, eu aqui, o babaca de plantão, nado de braçada nas águas da consciência tranquila. A tese é simples. Se esse tal deus existir, como corre o boato, e ele for tão bom quanto dizem, não quererá se vingar de um ingênuo como eu só pelo atrevimento de não acreditar nele. A não ser que deus seja vingativo. Se for, não merece o que se fala dele.

 

Muitos dos que dizem acreditar usam deus como o puta merda no banco do carona dos carros. Precisam de algo onde se agarrar e essa é a opção deles. Não vou discutir essa opção. O puta merda dos carros pode ter ajudado, mas eles não sabem a força que você ganha por não acreditar em deus e passar a acreditar em si mesmo.

 

Desejo que façam bom uso da sua fé, da sua crença e das suas culpas. O dia que descobrirem como é bom se libertar disso tudo vão se arrepender de não ter descoberto essa alternativa antes.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

SEX, 11.03.2016

A vida como ela não é

O objetivo básico da vida terrena é simplesmente nenhum

Pedro Mattar

Para o Portal Top Vitrine

1 comentário(s)

Acabei descobrindo a origem humana. Elementar, porra. Nossa origem vem do orgasmo, esse prazer complementar incorporado nas transas. Lembra? Ou você nunca participou? E eu preocupado com outras versões espalhadas por aí, pressionado para abandonar minha cegueira mental e aderir às divindades disponíveis no mercado. Veja só, dormia quando me ocorreu o simples. Não o imposto, mas a síntese existencial.

 

No lugar de sair procurando a verdade, mesmo dormindo, decidi me ater aos fatos. A gente tem pai e mãe pra quê? Foi o começo do meu raciocínio. Eles transaram e fui gerido, essa figura idiota que você lê. Pois é, como idiota de plantão divido com você a minha descoberta. Não quero royalties, lego à humanidade esta minha descoberta. Sugiro que guarde este documento.

 

Você pode continuar - se quiser - buscando a verdade sobre suas origens em todos os cantos do mundo. Irá chegar onde eu cheguei. A verdade estava instalada dentro de mim. Pra que ficar queimando neurônios em busca de respostas, se um sujeitinho como eu, na sua limitação cabocla e rudimentar já chegou lá. A curiosidade humana não se conforma: todos querem saber qual o nosso objetivo e para onde iremos depois que preenchermos nossa cota como viventes. Mania turística.

 

Pois bem, sabendo disso já havia feito minhas pesquisas e estudos a respeito. Tenho conclusão baseada em fatos. Meus levantamentos indicam que o objetivo básico da vida terrena é simplesmente nenhum. E não venham com teses e hipóteses mirabolantes porque isso irá contrapor experiências cientificamente comprovadas por mim mesmo. Por ser igual a qualquer ser humano, me declaro tão competente quanto pretensas autoridades sobre o assunto. Com a diferença que não ganho nada com isso e nem acho que templo é dinheiro.

 

Amigos leitores, tenho consciência de que encho o saco de vocês e que minhas ideias são polêmicas, mas não dá pra levar a vida à sério. Tentem sobreviver dando risadas porque tudo parecerá mais razoável. Cansei de ficar indignado e sair agitando bandeiras contra e a favor disso e daquilo. Decidi cavalgar montado no humor e sair galopando na pradaria do cotidiano.

 

Não consigo mentir pra mim e, menos ainda pra você. Se você acha que o futuro pode ser um período melhor, sem corrupção, sem inconsequências e com harmonia entre as pessoas e os povos, melhor preparar seu estoque de papel higiênico. O passado é o documento de que o futuro será um remake do que já ocorreu. O que irá mudar é a roupagem, novos figurinos, novas tecnologias e aperfeiçoados métodos de sacanagem.

 

Juro, não sou pessimista, sempre desfruto os bons momentos que passam por mim. Aprendi a ter consciência deles e aproveitá-los intensamente. Faça isso. Só que botei na cabeça que não tenho mais direito de bancar o ingênuo. Não estou recomendando que você seja infeliz por desistência. Espero apenas que você use a inteligência para aproveitar melhor as boas coisas que existem. Enquanto ainda existem.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

SAB, 20.02.2016

Ainda bem que existe bunda

Imagine o que seria de você se não tivesse bunda?

Pedro Mattar

Para o Portal Top Vitrine

Minha bunda não combina com algumas tampas de privada. O contato diário entre ela determina a promiscuidade inevitável e vem daí algumas incompatibilidades.

 

Não basta ter a tampa da privada como proteção contra o contato direto com os abomináveis vasos sanitários: é preciso obedecer alguns critérios que tornem essa relação mais confortável.

 

Falo de vasos sanitários públicos, já que os lá de casa foram adaptados ao gosto exigente da minha bunda. Trato bem dela, já que isso é indispensável ao meu conforto.

 

Bundas cumprem função estratégica na aerodinâmica corporal. Sem elas o corpo humano estaria condenado a ser assentado diretamente sobre o cóccix, o ossinho pontudo no final da coluna vertebral.

 

Reconhecer a importância da bunda já é um avanço na conscientização humana sobre higiene e conforto. Afinal, nem todos se lembram do papel acomodador que as bundas oferecem aos seus felizes proprietários.

 

Imagine o que seria de você, que se atreve a me ler, se não tivesse bunda? Sua única alternativa seria viver como o jacaré, que fica o tempo todo virado com a barriga pra baixo.

 

Você talvez não saiba, mas os jacarés são frustrados por falta de bunda. Reparem no olhar arregalado deles.

 

Você iria sentir essa frustração caso fosse despojado dela. Suas reuniões de trabalho seriam feitas em pé, seus almoços em família, sessões de cinema e tudo que exigisse sentar, não teria alternativa. Ainda bem que para dormir a bunda não é imprescindível, mas nos demais momentos ela é indispensável. Talvez, não, em coquetéis.

 

Existem infindáveis tipos de bunda, assim como tampas de privada.

 

As bundas magrinhas são as que mais exigem tampas de privada almofadadas. O contato de bundas magras com tampas de privada duras não proporciona o conforto desejado por portadores magrelos.

 

Já as bundas salientes, volumosas, que as vezes excedem os limites das tampas, comprometem o desempenho normal das mesmas.

 

Tanto as bundas, como as tampas de privada, são ferramentas fundamentais nos encontros dos cidadãos consigo mesmo. São acessórios de uma reflexão que pode durar cinco minutos ou mais de meia hora. Você sabe do que estou falando.

 

Palavras cruzadas e leituras de diferentes origens, incluídas bulas de remédios, são parceiros de todos os tipos de bunda nas incursões pelos banheiros do mundo.

 

Sentar em cima da própria bunda é uma experiência que transcende. Mas versar sobre a bunda de alguém também pode gratificar espíritos mais exigentes. Porque a bunda, sob diferentes ângulos de avaliação, sugere conotações que superam os limites de mero acessório de conforto.

 

Neste artigo não ouso me aprofundar nos infindáveis mistérios que cercam esse utensílio do corpo humano. Existem outros ângulos em que a bunda é avaliada no seu contexto anatômico, sob o ponto de vista imaginário masculino e feminino.

 

Instaladas na parte traseira do corpo, possivelmente para reduzir seu desgaste em incontáveis choques durante a vida, bundas atuam como um tipo de mochila carnosa que todos arrastamos para cima e para baixo.

 

Caso a bunda fosse posicionada na frente do nosso corpo, isso afetaria a posição de alguns dos nossos órgãos. Mulheres, por exemplo, reclamam da falta de pontaria dos homens na direção do xixi diário. Podemos antever que, com a bunda na frente e demais órgãos atrás, o desastre seria maior.

 

Quando me profundo na literatura de essência fico um sujeito insuportável.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Paulo Renato Coelho Netto/Livro Mato Grosso do Sul

Pedro: Jacarés são frustrados por falta de bunda

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Pedro Mattar

Pedro Mattar tinha 77 anos, até ontem, e hoje soma mais um ou mais dias, dependendo da data desta publicação... É publicitário, rebelde sem o mínimo motivo e exerceu diversos cargos em empresas e administrações públicas, os quais tem vergonha de citar. Como escritor, acha que é o maior leitor de si mesmo. Sob essa perspectiva, subscreve atenciosamente, sem assinar. Desde julho de 2011 é articulista semanal do Portal Top Vitrine.

pedromattar@uol.com.br

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