Campo Grande-MS 24.08.2017

Frei Betto

Frade Dominicano e Escritor

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SEG, 25.04.2016

Passeio socrático, por Frei Betto

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito

Frei Betto

Para o Portal Top Vitrine

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz nos seus mantos cor de açafrão.

 

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos dependurados em telefones celulares; mostravam-se preocupados, ansiosos e, na lanchonete, comiam mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia outro café, muitos demonstravam um apetite voraz. Aquilo me fez refletir: Qual dos dois modelos produz felicidade? O dos monges ou o dos executivos?

 

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: “Não foi à aula?” Ela respondeu: “Não; minha aula é à tarde”. Comemorei: “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir um pouco mais”. “Não”, ela retrucou, “tenho tanta coisa de manhã...” “Que tanta coisa?”, indaguei. “Aulas de inglês, balé, pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: “Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’”

 

A sociedade na qual vivemos constrói super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas muitos são emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram que, agora, mais importante que o QI (Quociente Intelectual), é a IE (Inteligência Emocional). Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

 

Uma próspera cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: “Como estava o defunto?”. “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!” Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

 

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega Aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

 

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilidade coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: “Se tomar este refrigerante, vestir este  tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!” O problema é  que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

 

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globocolonizador, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

 

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping  centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de  missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

 

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer de uma cadeia transnacional de sanduíches saturados de gordura…

 

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático.” Diante de seus olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”

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DOM, 17.04.2016

O Dia D do Brasil

Então, durante seis meses, teremos Michel Temer como presidente

Frei Betto

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Cada país tem o dia D que merece. Os aliados, que lutaram na Europa para derrotar o nazismo de Hitler e o fascismo de Mussolini, tiveram o famoso dia D em 6 de junho de 1944, quando suas tropas desembarcaram na Normandia, litoral norte da França, dando início ao fim da Segunda Grande Guerra do século XX.

 

O nosso dia D – de Dilma – é hoje. Presidida por Eduardo Cunha, acusado de esconder dinheiro no exterior, a Câmara dos Deputados decidirá, até o fim desta noite, se a presidente Dilma deve ou não sofrer processo de impeachment.

 

O Brasil não merece tamanha desgraça!

 

Caso os deputados federais votem pela saída da presidente, Dilma aguarda a votação no Senado. Se esta casa decidir pela continuação do processo de impeachment, então Dilma limpa as gavetas no Palácio do Planalto e se abriga 180 dias no Alvorada, até o Senado votar se ela deve ou não ser cassada. Então, durante seis meses, teremos Michel Temer como presidente. Isso se o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não decidir cassá-lo também por conta das pedaladas fiscais. Aí, sem Dilma e Temer, a presidência, vejam só!, cai nas mãos de Eduardo Cunha. O Brasil não merece tamanha desgraça!

 

Há dois cenários a encarar. O primeiro, o processo de impeachment ser paralisado hoje pela Câmara dos Deputados. Nesse caso, Dilma terá que deixar de lado sua teimosia e mudar os rumos do governo, pois o PT cometeu o grave erro de confiar politicamente em seus potenciais inimigos que, agora, o abandonam. A maioria dos políticos (mal escolhidos por nós, eleitores) age movida por interesses, e não por princípios.

 

Temo que, não aprovado o impeachment, o governo federal decida recompensar os parlamentares que votaram a seu favor e fazer do ministério uma colcha de retalhos de benesses e agrados.

 

Caso Temer assuma, haverá manifestações e pressões dos movimentos sociais, já que ele deixou claro, em seu desastrado discurso de “empossado” (possuído pela mosca azul), que implementará um ajuste fiscal ainda mais rigoroso. Nesse caso, haverá crescente criminalização do elementar direito de protestar e reivindicar.

 

O segundo cenário é o impeachment não ser aprovado. Então Dilma terá que, enfim, se apoiar nos movimentos sociais, mudar o rumo do ajuste fiscal (e exigir mais sacrifícios dos ricos que dos pobres) e promover reformas estruturais (como a urgente reforma política, cuja falta tem resultado nesta realidade nefasta que estamos vivendo). E o PT terá de se reinventar, fazer autocrítica, como sugerem Olívio Dutra e Tarso Genro, expulsar os corruptos de seus quadros e voltar às bases populares.

 

O fato de Temer nunca falar de combate à corrupção deixa a impressão de que a ele não interessa o avanço da Lava Jato. Isso sim, seria um retrocesso. As classes política e empresarial sempre gozaram de imunidade e impunidade. Restaurar essa bandidagem consentida é escarrar em nossa democracia.

 

Crise vem da palavra crisol, purificar. Talvez a turbulência na qual vive hoje o Brasil sirva para amadurecer a nossa democracia. Caso contrário, voltaremos a ser mera republiqueta.

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SEX, 15.04.2016

Dois gênios em festa no céu

Shakespeare, nascido em 1564, viveu 51 anos. Cervantes, nascido em 1547, 68

Frei Betto

Para o Portal Top Vitrine

Em 23 de abril de 1616 – há exatos 400 anos – houve festa no céu. Com certeza, um grande sarau literário. Naquela data, dois gênios da literatura universal deixaram o nosso mundo, que tão bem retratam em suas obras: o inglês William Shakespeare e o espanhol Miguel de Cervantes.

 

Se considerarmos que o calendário gregoriano havia sido adotado no reino de Castela desde o século XVI, e pela Inglaterra apenas em 1751, Shakespeare teria vivido 10 dias a mais do que Cervantes.

 

Shakespeare, nascido em 1564, viveu 51 anos. Cervantes, nascido em 1547, 68. Talvez os dois tenham se admirado com a coincidência de data ao se evadirem dessa Terra tão atribulada, e felizes por, afinal, se conhecerem pessoalmente. E exultaram se comungavam a esperança expressada, séculos mais tarde, por Jorge Luis Borges: “Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de biblioteca.” Espero que sim, pois nesse curto período de vida é impossível ler todos os livros que me atraem.

 

Shakespeare se casou aos 18 anos com a rica Anne Hathaway, de 26, que lhe deu três filhos: Susanna e os gêmeos Hamnet e Judith. Em Londres, trabalhou como ator e escritor. Até 1590, influenciado pelo teatro italiano, escreveu principalmente comédias, como A megera domada e A comédia dos erros.

 

O melhor de sua produção foi entre 1590 e 1613. Em 1595, Romeu e Julieta. Em 1599, Júlio César. De 1600 a 1608, Hamlet, Rei Lear e Macbeth. Ao longo da vida, produziu 16 comédias, 12 tragédias e 11 dramas históricos.

 

Machado de Assis teria buscado em Otelo a inspiração para criar o personagem Bentinho, do romance Dom Casmurro. E a revolta dos canjicas, na novela O alienista, seria a versão tupiniquim de rebelde Jack Cade, da peça Henrique IV.

 

O conto A cartomante, de Machado de Assis, abre com a famosa frase de Hamlet: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia.”

 

Cervantes, com sua obra-prima, Dom Quixote de la Mancha, é considerado o pai do romance moderno. Assim como a obra de Shakespeare consolidou o idioma inglês, a de Cervantes produziu o mesmo efeito no espanhol.

 

Em 1569, aos 22 anos, Cervantes se refugiou na Itália, após ferir um desafeto com quem duelou. Em 1571, participou da batalha de Lepanto, quando a esquadra formada por países cristãos derrotou os soldados do Império Otomano, de fé islâmica. Ferido, ficou com a mão esquerda inutilizada.

 

Ao navegar de Nápoles a Castela, em 1575, foi capturado por corsários argelinos, que o retiveram por cinco anos, até receberem o resgate. Viveu em Lisboa entre 1581 e 1583.

 

De retorno à Castela, casou com Catalina de Salazar, em 1584, aos 37 anos, com quem teve a filha Isabel. No ano seguinte, publicou seu primeiro romance, A galatea. Preso em 1597 por dívidas bancárias, durante o ano que permaneceu no cárcere esboçou o Dom Quixote, cuja primeira parte se editou em 1605 e, a segunda, dez anos depois. Escreveu também novelas, comédias e poemas.

 

Além da coincidência de falecerem na mesma data, Shakespeare e Cervantes foram mestres no modo de tratar temas políticos com refinado talento artístico e, ao mesmo tempo, dissecar as profundezas da alma humana.

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Reprodução/Capa

Dom Quixote é um dos livros mais lidos e traduzidos

de 99

Frei Betto

Doutor honoris causa pela Universidade de Havana, Frei Betto é frade dominicano, conhecido internacionalmente como teólogo da Libertação. É autor de 60 livros de diversos gêneros literários, –romance, ensaio, policial, memórias, infanto-juvenis e temas religiosos. Em duas oportunidades - 1985 e 2005 - recebeu o Jabuti, prêmio literário mais importante do Brasil. Em 1986 foi eleito "Intelectual do Ano" pela União Brasileira dos Escritores. É assessor de movimentos sociais como as Comunidades Eclesiais de Base e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Frei Betto participa ativamente da vida política do Brasil nos últimos 50 anos. Desde maio de 2012 é articulista semanal do Portal Top Vitrine.

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