Campo Grande-MS 23.05.2017

Breno Rosostolato

Psicólogo e Terapeuta Sexual

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QUA, 06.04.2016

Crise sexual no Japão, a preferência pela fantasia à realidade

Japonesas entre 20 e 25 anos têm 25% de chance de nunca se casarem

Breno Rosostolato

Para o Portal Top Vitrine

Os japoneses estão vivendo uma crise existencial que implica, entre outras coisas, uma crise sexual. A mídia japonesa tem até um nome pra isso, ‘sekkusu shinai shokogun’ ou, numa tradução livre, a ‘síndrome do celibato’.

 

Desde 2006, as japonesas reclamam dos ‘soshoku danshi’ ou ‘homens herbívoros’. Homens que não têm interesse pelo sexo oposto e desejo carnal. De acordo com o Centro Populacional do Japão, 45% das mulheres e 25% dos homens com idade entre 16 e 24 anos não estão interessados ou desprezam o contato sexual e mais da metade dos japoneses são solteiros.

 

Um grupo de homens surge com estilos de vida e comportamentos bastante peculiares. Estes são os ‘otakus’, uma geração de nerds que gosta de literatura mangá, anime, computadores e de um jogo que simula relacionamentos amorosos, o Love Plus, da Nintendo. Estas namoradas virtuais fazem muito sucesso entre os Otakus, mais até do que fazer sexo.

 

Se após a Segunda Guerra Mundial aquela geração de homens foi responsável pelo orgulho e renascimento do Japão como uma grande potência, os otakus são bem diferentes e não fazem o gênero macho alfa. Mais introspectivos e tímidos esses homens não interagem com as mulheres reais.

 

A questão é tão curiosa que as taxas de natalidade do Japão começam a diminuir porque a população está envelhecendo e com poucos nascimentos. Ainda com base nas estatísticas do Instituto Populacional do Japão, uma projeção é bastante significativa. Mulheres entre 20 e 25 anos têm 25% de chance de nunca se casarem e 40% de chance de nunca terem filhos. Os números de japoneses que não almejam um relacionamento amoroso, casamento e filhos, crescem exponencialmente.

 

A desigualdade entre os sexos no Japão exige muito das mulheres. Espera-se que elas se casem cedo, tenham filhos e vivam, exclusivamente, para a família. Para isso, são obrigadas, até mesmo, demitirem-se dos empregos para cumprir tais funções, impossibilitando independência financeira e autonomia. Por isso, muitas jovens escolhem dedicar-se ao trabalho, carreira e o futuro profissional e rompem com padrões sociais. Sofrem resistência da sociedade e são conhecidas como ‘oniyome’ ou ‘esposa do diabo’.

 

Além das implicações sociais e comportamentais, a economia japonesa começa a declinar devido a todas estas mudanças. A equação está formada. Uma mistura arrebatadora. Uma realidade de rigidez social. Multiplique pelo desrespeito às mulheres e some a uma crise masculina baseadas em expectativas no qual os homens não sustentam mais. Eleve à segunda potência a tecnologia. Resultado, a fantasia virtual que possibilita uma fuga da realidade, uma válvula de escape que vem muito bem a calhar.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

SEX, 01.04.2016

Inveja, a pior de nossas virtudes

O invejoso se sente sempre ameaçado. Sua virtude é a mediocridade

Breno Rosostolato

Para o Portal Top Vitrine

O aforismo no Templo de Apolo em Delfos – ‘Conhece-te a ti mesmo’ – é uma máxima que na contemporaneidade é dimensionado através da confrontação. O processo de autoconhecimento sempre foi muito difícil, mas hoje, o ser humano encontra-se e depare-se consigo através de reflexos. Reflexos de espelhos que, inevitavelmente, revelam nossas angústias. E eis que, quando elegemos o outro como este espelho e fixamos esta ideia, ficamos refém da inveja.

 

Invejar não é cobiçar. Cobiçar é querer alguma coisa do outro, cujo desejo impulsiona a buscar. Pode ser negativo e positivo, entretanto, a inveja é negativa porque se baseia na tristeza que sentimos pela felicidade alheia. É sentir-se aflito pela prosperidade dos outros. Tristeza por saber que o outro tem. 

 

A origem latina da palavra inveja é ‘invidere’ que significa ‘não ver’, do latim ‘invido’, olhar mal. Talvez a etimologia já forneça uma boa compreensão da inveja e os sentimentos envolvidos a ela. Não conseguir enxergar as próprias qualidades e ter olhos apenas para as qualidades e conquistas daquele que não tolero. Mas não ver é também é incapacidade de reconhecer o próprio fracasso diante do sucesso do invejado.

 

O Purgatório de Dante Aliguieri é o lugar para onde vão os invejosos, e que são castigados pelo seu pecado tendo as pálpebras costuradas nos olhos por fios de metal. Nada vendo, não podiam mais invejar. A inveja começa no olhar e na comparação de si com o outro, sobretudo se este alguém for muito próximo – o colega de trabalho em ascensão, o irmão que considero ser mais favorecido do que eu na família, o cunhado que é mais intelectualizado, o primo refinado que viaja para o exterior todo ano.

 

Não invejo quem está longe, porque é a pessoa próxima reflete meu dissabor, meu insucesso. Estamos no mesmo lugar, mas enquanto ela consegue caminhar e progredir, eu permaneço inerte e apático.

 

A psicanalista austríaca Melanie Klein dizia que a inveja iniciaria no momento da amamentação, o que ela chama de ‘inveja do seio’. O estado de dependência com a mãe resultaria na inveja e a reação do bebê é destruir esta percepção, logo, a dor de sentir inveja é um dos sentimentos mais primitivos do ser humano. Se perceber invejoso é concomitante à apropriação do outro. A inveja é reconhecer limitações e uma maneira de enaltecer aquele que possui mais sucesso do que eu.

 

O ciúme é derivado, em certa medida, da inveja. O incômodo torturante. A insatisfação exposta pelo espelho. Com o tempo e condicionados a imagem idealizada, passa-se a viver a mercê deste ciúme. Uma disputa por atenção e afeto. A sensação de abandono é crucial e o pressentimento de incompletude. Uma vez que o sucesso do outro é ameaçador, a rivalidade e disputa são consequências. A inveja é do sucesso e não do infortúnio do outro. A desgraça comove e sensibiliza as pessoas, mas o sucesso pode distanciar.

 

Na língua alemã existe uma expressão - ‘schadenfreude’ - que designa aquela sensação de prazer no infortúnio do outro. O insucesso da pessoa invejada causa satisfação e êxtase. Assim foi com Michelangelo quando convidado, por insistência do pintor Donato Bramante, para pintar os afrescos da abóbada da Capela Sistina. Bramante convenceu o Papa Julio II para que contratasse Michelangelo, acreditando que ele não seria capaz de finalizar a grandiosa obra de arte e assim, desistiria, manchando seu nome, o que não aconteceu. O filme ‘Amadeus’ retrata a relação de inveja do compositor italiano Antonio Salieri em relação ao compositor austríaco, Wolfgang Amadeus Mozart e sua ascensão precoce.

 

Fato é que a inveja é uma boa desculpa para o insucesso: ‘Eu não consegui por que muitos me invejam’, ‘não passei por causa da inveja’, ‘só pode ser inveja’. A inveja é a desculpa conveniente e, ao mesmo tempo, a nossa inexorável incapacidade de admitir a diferença, afinal, comparar-se ao outro é no fundo, a tentativa de se igualar. O historiador Leandro Karnal afirma que, embora agrupados em similitudes, ainda assim, somos diferentes, logo, condenados viver tais diferenças. Ainda bem.

 

O invejoso se sente sempre ameaçado. Sua virtude é a mediocridade. A castração das emoções, da iniciativa, do desejo, do espírito e do conhecimento. Prefere o infortúnio alheio ao sucesso porque o primeiro conforta, o segundo, incomoda. Invejar é confrontar-se com a morte, com a finitude, porque a cada vez que perguntamos se somos felizes, respondemos pensando no que o outro tem. Saber do fim nos obriga a obter esta felicidade a todo custo. Por isso nos dias de hoje se paga um preço caro para ter algo, porque a inveja ao outro é insuportável. Assim é a sociedade que torna a inveja seu alimento e se suicida através dela.

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QUI, 24.03.2016

Crimes passionais, relações abusivas e a violência de gênero

Homens não morrem simplesmente por serem homens. Mulheres sim

Breno Rosostolato

Para o Portal Top Vitrine

Crimes passionais são aqueles cometidos por paixão. Motivação que não é, infelizmente, muito incomum nos noticiários policiais. São constantes notícias deste tipo. A pessoa, que movida por forte descontrole emocional, agride, violenta e até mesmo, assassina o outro.

 

Os motivos são diversos e, muitas vezes, banais. Frustração no relacionamento, não aceitação do término desta relação, ciúmes, sentimentos de propriedade pelo outro e assim por diante. Crimes que se pautam no domínio pelo outro, em expectativas projetadas e pouca, ou nenhuma, tolerância à frustrações.

 

Os argumentos são semelhantes para quem comete tais atos violentos. Sentem-se pouco valorizados, não se sentem reconhecidos e aceitos pelo outro. Características da sociedade contemporânea, este tipo de crime é associado com o patriarcado, que ainda produz, e que construiu ao longo da história a concepção de que a mulher é abjeto. Mulheres sujeitas às imposições dos homens, portanto, vítimas, na grande maioria dos casos. Vale salientar que crimes assim acontecem há muito tempo e que intensifica-se com o advento do machismo.

 

Violência de raízes sexistas e misóginas. Possui como mote a ideia estapafúrdia de ‘lavar’ a honra. Que honra tem na morte do outro? Isso é honra? Segundo o advogado Benedito Raymundo Beraldo Júnior, crime passional é tipificado como homicídio passional e é ‘cometido por paixão, tanto pode vir do amor como do ódio, da ira e da própria mágoa’.

 

O sentimento é de ódio, cujo pensamento perverso baseia-se na ideia de que o homem possui o controle daquela vida e do corpo da mulher, logo, ‘move a conduta criminosa o argumento da legítima defesa da honra’, pois fora contrariado em suas determinações.

 

O feminicídio é uma fatídica realidade que estabelece uma espécie de hierarquizações sociais arbitrárias e assassinas entre homens e mulheres. Homens não morrem simplesmente por serem homens. Mulheres sim.

 

O sistema patriarcal é responsável pela perpetuação da misoginia, ou seja, a aversão às mulheres. Homens deveriam ser soberanos e comandar a família, ser fortes e não demonstrar fraquezas. Para tal, devem se impor, nem que para isso utilizem da violência. A história confirma isso. Controlar a mulher era uma característica valorizada no machão, que ainda hoje a enxerga como sua propriedade.

 

Na Antiguidade, as tribos e famílias eram comandadas pela mãe, ou seja, sociedades matriarcais cuja figura de responsabilidade eram as mães, desde a divisão de bens, o sustento da família e pela organização do clã. Foi por volta do século IV d.C., período posterior ao surgimento do pastoreio, os hebreus mudaram essa perspectiva e inauguraram o patriarcalismo em que a imagem de poder passa para o homem, o pai.

 

Foi na Idade Média que a mulher é explorada como um objeto a serviço do homem. Subserviente, as mulheres foram perseguidas pela Santa Inquisição em inúmeras acusações de bruxaria. A Idade Moderna marca outro aspecto importante que fomenta a violência de gênero. As mulheres são excluídas da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, documento que surgiu após a Revolução Francesa de 1789.

 

A sociedade se organiza através de leis feitas por homens e com o intuito de controlar e dominar as mulheres. Medidas coercitivas e que impediam as mulheres, por exemplo, o direito ao voto. Na contemporaneidade é a emancipação feminina que dá a tônica à sociedade e o movimento feminista cresce e se difunde no mundo todo.

 

A generificação das relações entre homens e mulheres é opressor e violenta. De acordo com Maria Amélia de Almeida Teles e Monica de Melo, autoras do livro ‘O que é violência contra a mulher?’ provocam uma pertinente reflexão quando usam as expressões ‘violência de gênero’ e ‘violência contra a mulher’ como sinônimas.

 

A violência de gênero não se restringe à binaridade homem/mulher, tão somente, mas, nas relações de poder, ou seja, etnia/raça e classe. A filósofa Judith Butler vai além e provoca com sua concepção de gêneros como ato intencional e performativo. São gestos, palavras e estereótipos que expressam uma realidade e montam um cenário de violência.

 

Estes são os ‘gêneros inteligíveis’ como descreve Butler em ‘Problemas de Gênero (2003)’ no qual a conformidade entre sexo – gênero – desejo – práticas é a coerência social reconhecida e imposta. Um ser que nasce com um pênis será aceito como homem, logo, deve ser masculino, desejar mulheres e manter relações sexuais em que ele seja ativo e que penetre.

 

Os relacionamentos abusivos baseiam-se em uma violência invisível, embora notória e que produz sutis agressões, principalmente de um homem para uma mulher, típico de sociedade em que existe uma atmosfera machista e generificada.

 

Possessividade e controle ao outro são alguns sinais da violência e que vão desde vigiar o que se faz na internet, controlar conversas ao telefone, exigir saber suas senhas pessoais, ciúmes excessivo, desconfiança e acusações de traição.

 

A pessoa é agressiva sem tocar o outro. Grita, ameaça, quebra objetos como forma de intimidação. Este homem maltrata outras mulheres como a mãe, irmã ou a avó. Manipula no sentido de obter aquilo que deseja e depois pede desculpas se vitimizando. Confunde com jogos emocionais e chantagens.

 

A ‘coisificação’ do corpo da mulher é uma consequência marcante à violência de gênero. Exemplo disso nas relações abusivas é o sexo forçado, no qual se entorpece, embebedam, fazem chantagem ou tentam fazer sexo com a pessoa dormindo. Um corpo que para alguns homens está sujeito à seus desejos e vontades. É desumanizar o ‘ser mulher’.

 

Os relacionamentos pautados na generificação permitem ao homem o protagonismo e privilégios que a mulher não possui. A elas a subalternidade e uma ‘inessencialidade’ que invisibiliza e a faz desaparecer. Alguém ‘inessencial’ pode ser eliminado, daí o feminicídio.

 

Concordo com a filósofa Marcia Tiburi quando afirma que ‘o poder sempre marca’ referindo-se ao patriarcado. Enquanto poder, este se estabelece como privilégio sim e em detrimento do sofrimento daqueles que não usufruem deste privilégio. Marcou e marca mulheres.

 

Tiburi complementa e afirma que homens são marcados também, desde que sejam negros, gays ou homens trans. Eu me atrevo a complementar. O patriarcado é um sistema que normatiza e enquadra tanto os homens que também enfraquecem eles. Marcas que escravizam os homens a ser algo que já não se sustenta mais.

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Breno Rosostolato

É psicólogo, terapeuta sexual e professor universitário em São Paulo (SP). É escritor, blogueiro - www.brenorosostolato.blogspot.com - e articulista de jornais e revistas. Breno Rosostolato é colaborador do Portal Top Vitrine desde fevereiro de 2013.

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