Campo Grande-MS 28.04.2017

A vida sem crachá

Claudia Giudice

compartilhe:

QUI, 14.04.2016

O bolo do sonho da Luciana, direto da Austrália

Adiar um segundo só. Fiz isso muitas vezes. A minha geração era bundona

A vida sem crachá

Para o Portal Top Vitrine

Não sei porque, mas a gente tem a mania de protelar os sonhos. Deixar para amanhã aquilo que poderia fazer ontem. Deixar para depois aquela vontade, aquele desejo mais profundo. Esperar um pouquinho mais. Adiar um segundo só, que acaba virando um minuto, uma hora, um dia, um mês, um ano, uma década, se bobear um século. Fiz isso muitas vezes. Vi amigos fazendo também. A minha geração era bundona. Tinha um apego danado ao mass midia, ao stabilishment, ao mainstream.

 

Quando jovem, até sonhei em jogar tudo para cima e para o lado e mudar para a Europa. Viver na França e lavar prato. Por aqui, Sarney governava um país consumido pela inflação: 363% ao ano. Uma loucura. Um crise, que de tão profunda a gente achava até normal. Fui e voltei. Tinha cinco empregos quando parti. Ganhava 5.000 dólares por mês (naquela época tudo era dolarizado), uma fortuna para um pirralha recém-formada de 21 anos. Meu sonho ficou no ar. Quem sabe aos 60, coloco em prática.

 

O projeto da Vida sem crachá não foi um sonho, mas uma contingência. Deu certo. Agora, a proposta da versão 2, a missão, é contar sonhos que viraram planos B e deram certo. Ou vão dar certo. Ou não. Tanto faz. O que importa é sonhar. A primeira história é da Luciana Rodrigues. Ela é gaúcha. Publicitária. Não é menina, nem representa a geração ypsilone, conhecida também como millenium. Lu tem 38 anos e sonha alto e longe.

 

Ela conta que até os 36 anos viveu “bela adormecida”. Sonhava mas não sabia direito com o que. Foi casada por 20 anos com homens diferentes, porque costumava engatar um relacionamento longo em outro mais longo ainda. O penúltimo, que durou 6 anos, terminou em 2012. Na sequência, emendou em outro que durou pouco, mas que segundo ela: “me acordou pra vida com um tapa na cara”.

 

Paft!

 

“Hoje, olhando pra trás, tenho a sensação que até os meus 36 anos de vida eu dormi ou vivi num estado de semi consciência”, diz Luciana, definindo o seu modo stand by de viver.

 

A transformação/virada aconteceu, acreditem, nas férias. Luciana viajou em dezembro de 2013 para Sydney, na Austrália, para passar uma temporada de apenas 30 dias com o irmão, que mora lá há oito anos. Era gerente de marketing de uma grande companhia. Ganhava bem. Tinha prestígio. Futuro. Estava com o coração partido. Melhor, despedaçado. Tomara um pé na bunda daqueles. Vamos ouvi-la:

 

“Cheguei em Sidney no dia 30 de dezembro de 2013, às 21h30 depois de uma viagem longa e cheia de imprevistos. Virei o ano numa festa absurdamente maravilhosa na Ópera House, onde vi os fogos explodirem na Harbour Bridge num cenário de filme. Não sabia se chorava de emoção, de alegria ou se abraçava meu irmão e minha cunhada pra desejar Feliz Ano Novo. Passei o mês de janeiro de 2014 inteiro aqui em Sydney curtindo a cidade, as praias, a vida. Foi intenso. Foi decisivo.”

 

As férias terminaram e Luciana voltou para o Brasil. Estava decidida. Em 3 de fevereiro, dia do seu aniversário, a executiva voltou ao trabalho e revelou à chefe sua decisão. Em um ano, deixaria a empresa para morar na Austrália. Ãh?

 

“Nunca antes na história da minha vida tinha planejado alguma coisa, tudo sempre foi acontecendo pra mim de um jeito ou de outro. Planejei minha mudança para a Austrália, coloquei tudo no papel, listei as razões pelas quais ia deixar minha boa vida em Porto Alegre e viria pra cá. O grande objetivo era me desafiar porque a vida na capital gaúcha era boa, mas era entediante. Meu trabalho, apesar de ser invejado por muitos, não me oferecia nenhuma oportunidade de crescimento à médio prazo. Eu queria mais, muito mais. Queria frio na barriga, medo, incerteza, desafios, queria saber os meus limites e quem eu sou de verdade. E achei que não iria conseguir esse pacote completo no Brasil. Então, comecei a executar o plano. Pra praticar mais o meu inglês, decidi virar hostess do CouchSurfing, um programa de hospedagem, e recebi muito gringo em casa. Foi a melhor coisa que fiz na vida. Conheci muita gente legal, me conheci através deles e hoje tenho amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Decidi também ser voluntária na Copa do Mundo e de novo, foi uma experiência incrível.”

 

Em paralelo às novas experiências, Luciana dedicou-se a juntar todo o dinheiro possível. Precisava comprar as passagens, pagar o curso e sobreviver. Não conseguiu ser transferida pela empresa onde trabalhava. Viajou com visto de estudante. Antes de embarcar, a necessidade de conseguir mais recursos gestou um plano B.

 

“Em setembro de 2014, percebi que precisava de mais dinheiro do que tinha e comecei a pirar. Tinha que arrumar essa grana. Poderia pedir para o meu pai, mas não quis. O plano e o sonho eram meus. Passei noites em claro tentando achar uma alternativa. Ela veio sem querer. Resolvi assar um bolo de chocolate para levar em uma reunião matutina na firma. Um bolo simples, mas bem gostoso.”Bingo. Nascia ali um empreendimento. Todos os que provaram o bolo, amaram. Sugeriram que eu fizesse outros para vender. Estava ali a solução para os problemas de Luciana. Criou uma página no Facebook chamada O Bolo do Sonho para vender seus quitutes. Marqueteira, embalou a gula em sua história linda.

 

“Contei que tinha um sonho de morar na Austrália e por isso, estava vendendo bolos pra arrecadar dinheiro. De outubro de 2014 a janeiro de 2015, vendi muitos bolos e consegui o dinheiro que faltava. Muita gente conhecida e desconhecida comprou meu bolo e apoiou a minha história. Pra cada um, eu escrevia um bilhetinho à mão agradecendo a ajuda. E cada vez que eu preparava um bolo encomendado por alguém que também tinha uma história, eu fechava meus olhos e colocava, além dos ingredientes, um pouco da minha energia, dos meus bons sentimentos. Essa era a parte legal: levar doçura e coisas positivas pras outras pessoas.”

 

Sherazade já sabia que uma história puxa outra e gentileza potencializa gentileza. Luciana chegou em Sydney em 25 de abril depois de ter pedido demissão da empresa onde trabalhou por 7 anos. Desembarcou com duas malas, onde colocou o que sobrou das suas coisas depois de ter vendido quase tudo. Desapego total. Sonho transfomado em realidade. Ela conta sua nova rotina:

 

“Hoje sou garçonete num restaurante italiano e arrumadeira num hotel, só ando de bicicleta pra cima e pra baixo e nunca mais usei um salto alto. Se eu sinto falta da vida corporativa? Às vezes, sim. Mas aprendo mais sobre a vida aqui, servindo mesas e limpando privadas, do que estava aprendendo sentada no escritório na frente de computador. Não tenho mais crachá e nem salário fixo. Tenho liberdade, tenho segurança e muitas oportunidades de me reinventar quando eu quiser. Tenho uma nova página, em branco, pra escrever todos os dias. E tenho um objetivo: conseguir um sponsor pra poder pedir o visto de residência permanente na Austrália. Quando esse dia chegar (e ele vai chegar), vou escalar a Harbour Bridge. Meu último medo – o de altura – vai acabar ali. Essa é a minha história. Vou continua sonhando, planejando e realizando.”

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

DOM, 03.04.2016

Ali vai alguém que não deve nada a ninguém

Quantas escolhas erradas eu fiz? Quantas horas de sono eu perdi?

A vida sem crachá

Para o Portal Top Vitrine

Outro dia vi uma propaganda de produtos cosméticos que discutia questões de gênero. Não lembro a marca. Não lembro o produto. A mensagem me devolveu à infância. Uma voz adulta dizia: “você não pode sentar de perna aberta”. Outra voz bronqueava: “está toda desarrumada. Parece um menino.” Uma terceira fala, agora em coro, bradava acompanhada de diferentes predicados: “o que vão pensar de você…vestida assim desse jeito, …falando desse jeito, …agindo desse jeito.”

 

O efeito dessas vozes, repetidas insistentemente durante a infância e adolescência pelas avós, tias, mãe e amigas das mãe, tias e avós, sobrevive no meu corpo e na minha alma. Por mais que goste, não consigo sentar de perna aberta. Estou sempre com elas cruzadas, até mesmo agora, enquanto escrevo sentada à mesa. Sobre a desarrumação, a fala teve efeito reverso de trauma-maldição. Me tornei uma adulta desarrumada e bagunceira ao extremo. Até eu mesma me canso da minha zorra, às vezes.

 

A terceira ladainha, poderosa como um mantra do capeta, é o motivo deste texto. O que vão pensar de mim? Por causa dessa dúvida, preocupação estúpida, pessoal e intransferível, vivi a maior parte dos meus 50 anos pensando nos outros – ou melhor, naquilo que eventualmente os outros poderiam pensar sobre a minha insignificante pessoa. Será que alguém pensava? Será que alguém falava? Não sei. Bastou a ameaça. Bastou a potencialidade de um mau julgamento para eu me comportar, agir, escolher segundo os bons modos do senso comum.

 

Por causa do que poderiam pensar sobre mim, quantos momentos de prazer eu perdi? Quantas escolhas erradas eu fiz? Quantos projetos equivocados abracei? Quantas horas de sono eu perdi? Quantos burradas cometi? Não sei dizer quantas, mas sei que foram muitas, inúmeras, incontáveis. Por que me submeti ao julgo alheio? Por que cedi à pressão do sequestro do olhar alheio? Vaidade, medo, vontade de criar um legado. A essa altura, bobagem fazer novos julgamentos. O feito está. E legado, definitivamente, é algo que não se preza em tempos de snapchat.

 

O fio da meada dessa reflexão foi puxado nesta semana. Estava andando pela rua e um amigo me viu. Buzinou. Gritou. Nada. Não conseguiu atrair minha atenção. Daí me escreveu: “chamou-me atenção seu ritmo: leve, fluido, sem pressa. Cabelos ao vento e perfil ereto. Pensei…tá de bem com a vida. Como dizia o Walter Franco: espinha ereta, a mente aberta e o coração.” Sim, estou de bem com a vida. Mas, o que faz mesmo a diferença é saber que nada faz diferença. Que digam, que pensem e que falem. Só posso dizer que, felizmente, não devo nada para ninguém.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Blog/A vida sem crachá

Cláudia Giudice

SEG, 28.03.2016

Plano C

A proposta é começar do começo. Fazer um plano estratégico

A vida sem crachá

Para o Portal Top Vitrine

O plano B virou A. O antigo A caminha para a extinção. Como prudência, dinheiro no bolso e canja de galinha não fazem mal a ninguém, parti para a construção do meu Plano C, que será B logo que deixar o plano das ideias e encarnar em um plano de negócios.

 

Dessa vez, vou fazer tudo direitinho. O time do Sebrae de Camaçari, meu município baiano, e de Salvador, a primeira capital do Brasil, está me ajudando. A proposta é começar do começo. Fazer um plano estratégico, um plano de negócio e estressar, até o limite, todas as hipóteses antes de colocar a mão no bolso.

 

Já temos a ponta do fio da meada nas mãos. Agora é hora de investigar, pesquisar, ouvir, perguntar, consultar e ler tudo o que estiver disponível sobre o tema. Você deve estar pensando: “plano C em meio a crise?” Pois é, existem dois momentos bons para investir. Aqueles de profunda bonança, como quando inaugurei a minha pousada. E momentos de absoluta tormenta, como agora. Espero estar escolhendo um nicho de mercado que faça sentido – meio caminho andado para o sucesso de qualquer plano C.

 

Preciso fazer uma confissão: a escolha fala ao coração. Sou do time que defende que plano B bom é filho do prazer. Gostar de fazer faz toda a diferença no resultado do negócio – e na satisfação que você tira dele. É o meu caso. O meu plano inclui garimpo, pesquisa, viagens, interação com o público e planejamento. Tudo o que eu gosto e sei fazer.

 

Cachorro picado por cobra tem medo de salsicha. Vou repetir o modelo, bem sucedido, do meu plano A. Vamos começar pequeno. Vamos mirar o bom e deixar o ótimo para o futuro. O risco foi a primeira coisa que avaliamos. Ele é pequeno. Não gosto de arriscar demais. Não quero sentir pressão de investidor, banco ou acionista. Acredito no simples. Gosto de começar pequeno e ver crescer. É o meu perfil. Perdoem-me, portanto, pela falta de ousadia.

 

Em ritmo de baile permanente, voltei ontem para as quadras e hoje para a academia. Preciso de muita disposição e energia para trabalhar. Desconheço plano B, C ou D que dê certo ou gado que fique gordo sem o olhar e o suor permanente dono. O negócio próprio, pequeno ou grande, prospera quando o dono está ali, do lado, colado, trabalhando, pensando e colocando a mão na massa.

 

Quem diria, que menos de um ano depois, eu iria rever todas as minhas apóstilas do Empretec para começar de novo. Que Hefesto, o Deus do trabalho, e São José nos protejam.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Reprodução/Internet

Hefesto, o Deus do trabalho

de 2

A vida sem crachá

Sou jornalista há 30 anos e empresária desde 2012. Fui executiva por nove anos. Desde agosto de 2014, vivo sem crachá após 23 anos de trabalho em uma grande editora. Decidi seguir carreira solo como escritora. Em agosto de 2015 lancei o livro "A Vida Sem Crachá" pela editora Ediouro. Hoje trabalho na própria empresa - pousada A Capela, que fica na praia do Pirui, perto vilarejo de Arembepe, na Bahia - e escrevo histórias sobre carreira, empreendedorismo, trabalho e gente no blog Claudia Giudice em A vida Sem Crachá. Claudia é articulista no Portal Top Vitrine desde fevereiro de 2016.

Filtrar Resultados

Utilize a busca avançadas do site para encontrar o que deseja.

Blogs & Colunas

Utilize a busca avançadas do site para encontrar o que deseja.